ARTIGOS ESPÍRITAS - JORGE HESSEN
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ESTÊVÃO - UM FADÁRIO DE AGONIA E SUBLIME AMOR

 No capítulo I do monumental livro “Paulo e Estevão” há uma descrição da cidade de Corinto, reedificada por Júlio César, localizada ao sul da Grécia entre os mares Jônio e Egeu, no Mediterrâneo. Destruída pelo cônsul romano Múmio em 146 a.C., Corinto era um importante centro produtor de uvas e passas. Homero (autor de Ilíades e de Odisséia) chamou-lhe “Riquíssima Corinto”, pela excelência de suas terras. Também era famosa pelas libertinagens e os romanos aí encontravam campo vasto para suas devassidões.
No ano 34 a.D., Corinto em peso foi atormentada por violenta revolta dos escravos oprimidos. Controlando a situação os romanos elegeram as numerosas famílias judaicas para suas extorsões. Uma delas foi o clã de Jochedeb ben Jared, pai de Abigail (18 anos) e Jeziel (25 anos de idade).
Licínio Minúcio, questor do Império, confiscou a propriedade de Jochedeb e dilacerou-lhe a família. Ben Jared, considerado violador da lei romana, foi condenado e morto sob a violência da chibata em presença dos dois filhos.
Abigail foi amparada por Zacarias ben Anan e sua esposa, e passou a residir em uma granja, na estrada de Jope. Todavia, o jovem Jeziel, após sofrer bárbaro martírio por espancamento, foi recolhido à prisão e depois de 30 dias foi conduzido para o serviço das galeras romanas.
Em Cefalônia, a embarcação recebeu Sérgio Paulo, patrício romano, que se dirigia para a cidade de Citium em missão de natureza política. Durante a viagem, o aristocrático romano adoeceu gravemente. Abriu-se seu corpo em ulcerações, de tal modo que o seus conterrâneos não se arriscaram a tratá-lo. O constrangimento foi imposto ao jovem Jeziel, que valendo-se das orações curou o eminente romano, enquanto ele próprio, Jeziel, contraia a mesma moléstia.
Penhorado em face do cuidado do irmão de Abigail, Sérgio Paulo conseguiu persuadir o comandante da galera, que almejava arremessar Jeziel ao mar no pressuposto de impedir o contágio na embarcação, para deixá-lo em terra, na costa da Palestina. Em terra firme, foi conduzido à Casa do Caminho, em Jerusalém.
Na instituição, recebido por Pedro e Tiago menor, Jeziel foi tratado, e após duas semanas ficou curado e depressa afeiçoara-se ao Pescador como um verdadeiro filho. Por sugestão do velho apóstolo, Jeziel passou a adotar o nome Estevão, em homenagem à velha Acaia, na Grécia.
O filho de Jochedeb era dos arredores de Sebastes e descendia da tribo de Issacar. Analisava as profecias, sobretudo de Isaias, pelas belezas das promessas divinas de que foi portador, anunciando o Messias. Ali, na Casa do Caminho, ficou sabendo que Jesus havia sido crucificado há mais de um ano e, em lágrimas, recordou o profeta: “Levantar-se-á como um arbusto verde, vivendo na ingratidão de um solo árido, onde não haverá graça nem beleza. Carregado de opróbrios e desprezado dos homens, todos lhe voltarão o rosto. Coberto de ignomínias, não merecerá consideração. É que Ele carregará o fardo pesado de nossas culpas e de nossos sofrimentos, tomando sobre si todas as nossas dores.”(1)
Estevão instruiu-se nas anotações de Mateus sobre o Divino Mestre e prontamente se integrou na vida da comunidade cristã. Em pouco tempo tornou-se célebre em Jerusalém. Lembre Emmanuel: “Quando muitos discípulos de Jesus deixavam de ampliar os comentários públicos para além das considerações agradáveis ao judaísmo dominante, ele apresentava à multidão, o Salvador do Mundo, indiferente às lutas que iria provocar, comentando sobre a vida do Crucificado com o seu verbo inflamado de luz.”(2)
O seu primeiro encontro com o futuro “Apóstolo dos Gentios” ocorreu no ano 35, no cenáculo da Casa do Caminho, quando Saulo ali esteve, levado por Sadoc, que o incitava a perseguir "os homens do caminho", cujo prestígio ascendia em Jerusalém. Durante a palestra, o irmão de Abigail leu um trecho das anotações de Mateus, capítulo 10 versículo 6 e 7: “Mas ides antes às ovelhas perdidas da casa de Israel; e, indo, pregai dizendo: É chegado o Reino dos Céus.”(3) Explicou que a Boa Nova era a resposta de Deus aos apelos humanos. Moisés foi o condutor, mas, Jesus é o Salvador. Com a Lei éramos servos, com o Evangelho somos filhos livres de um Pai amoroso justo e bom, pregava Estevão.
Saulo o ameaçou com a autoridade do Sinédrio, contudo o palestrante não se atemorizou e redarguiu ao rabino se tivesse alguma acusação legal contra ele, que expusesse e seria obedecido; mas, naquilo que diz respeito a Deus, só ao Criador competia arguir-lhe. Estevão tinha consciência de que o Sinédrio detinha muitas maneiras de fazer-lhe chorar, mas não reconhecia poderes para obrigar-lhe a renunciar ao amor de Jesus Cristo.
Anunciou ao filho de Tarso que aquele templo humilde era construção de fé e não de justas casuísticas. Agastado, Saulo providenciou para que o orador fosse conduzido ao Sinédrio a fim de ser interrogado. Sob o falso testemunho de Neemias, o jovem Estevão foi acusado de blasfemo, caluniador e feiticeiro, porém explicou a todos que não desrespeitava Moisés, mas não havia como deixar de reconhecer a superioridade de Jesus-Cristo, por isso, saberia pagar, pelo Mestre, o preço da mais pura fidelidade.
Saulo, por vingança, na condição de juiz, deliberou a pena de lapidação contra o irmão de sua noiva (Abigail, irmã do réu) encarcerado por dois longos meses. Após a leitura das denúncias, antes de proferir a sentença, Saulo perguntou-lhe se estaria disposto a renegar o Carpinteiro, com o que seria poupada sua vida. A resposta desassombrada do filho de Corinto foi de que nada no mundo o faria renunciar à tutela de Jesus. Morrer por Ele significava uma glória.
No dia assinalado para o apedrejamento, Estevão apresentava barba crescida e maltratada, trazia equimoses (sangue pisado) nas mãos e nos pés. Caminhando vagarosamente, fadigado, foi conduzido às proximidades do altar dos sacrifícios no Templo. Algemado no tronco do suplício, com os pulsos sangrando, pela brutalidade dos soldados, sob o sol abrasador das primeiras horas da tarde, foi cruelmente apedrejado.
Os verdugos eram os emissários das sinagogas das cidades que convergiam ao Templo. Tais carrascos se esmeraram para “resguardar” a cabeça do condenado, a fim de que o abominável espetáculo perdurasse mais tempo. Nesse momento, Estevão pensa em Jesus e ora. O peito se cobre de ferimentos e o sangue flui abundante. Recita o Salmo XXIII: “O Senhor é o meu Pastor, Nada me faltará. Deitar-me faz em verdes pastos, Guia-me mansamente A águas mui tranquilas, Refrigera minh’alma, Guia-me nas veredas da justiça Por amor do seu nome. Ainda que eu andasse Pelo vale das sombras da morte, Não temeria mal algum, Porque Tu estás comigo... A Tua vara e o Teu cajado me consolam.”...(4). Sentindo a presença de seus amigos espirituais, exclama: "Eis que vejo os céus abertos e o Cristo ressuscitado na grandeza de Deus!".(5)
Recorda a irmã Abigail. Por onde andaria? Que teria sido feito dela? Nunca mais a encontrara. Abigail, noiva de Saulo, e por ele convidada para assistir a execução chegava naquele instante. Ela que não desejava presenciar o espetáculo vil. Tentara mesmo junto a Saulo se não poderia ser outra a sentença ao jovem pregador, a respeito do qual o noivo lhe falara.
Surpresa, reconhece o irmão e ele, ante a visão do Cristo que olhava melancolicamente para Saulo, a reconhece igualmente. Já não tem certeza se ela em espírito ali se apresenta ou se é produto de alguma alucinação, pelas dores que o acometem.
A pedido de Saulo, que não entende como se tornara o verdugo do irmão de sua noiva, Estevão é retirado do poste e conduzido ao gabinete dos sacerdotes. Tanto quanto teve forças, o primeiro mátir do Cristianismo resumiu para Abigail sua história e lançou em sua alma as primeiras sementes da Boa Nova. A irmã lhe apresenta o noivo, Saulo, a quem o moribundo contempla sem ódio e acentua: "Cristo os abençoe... Não tenho no teu noivo um inimigo, tenho um irmão... Saulo deve ser bom e generoso, defendeu Moisés até ao fim..." (6)
A cena é comovedora. Abigail deixara o irmão preso ao poste de martírio em Corinto uma vez e torna a encontrá-lo, em idêntica condição, em Jerusalém. Ora, a pedido dele, conforme o fizera um dia, na sala de torturas. Ele desencarna, em seu regaço.
Estêvão ficaria agora mais junto do cunhado, transmitindo os pensamentos de Jesus. Seria o intermediário entre o Cristo e o Apóstolo dos gentios. Seria ainda o filho de Corinto que, ao lado de Jesus e de Abigail (desencarnada pouco depois do irmão, acometida de febre) viria receber o apóstolo Paulo, liberto dos laços da carne, conduzido por Ananias para a região do Calvário, logo após a sua decapitação ocorrida em Roma.

Jorge Hessen

http://jorgehessen.net


Referência bibliográficas:
(1)           Xavier, Francisco Cândido. A Caminho a Luz, ditado pelo espírito Emmanuel, 22ª edição, Rio de Janeiro: Ed FEB, 1992
(2)           Xavier, Francisco Cândido. Paulo e Estêvão, ditado pelo espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed FEB, 1982
(3)           Mt.10: 6-7
(4)           Salmo cap. XXIII
(5)           Atos 7: 56
(6)           Xavier, Francisco Cândido. Paulo e Estêvão, ditado pelo espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed FEB, 1982





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NASCIDO EM TARSO, RENASCIDO NAS VIAS DE DAMASCO

Saulo nasceu entre os anos 5 e 10 d.C.(1) em Tarso, província de Mersin, na zona meridional da Turquia central. Era descendente de uma respeitável e rica família de judeus da Diáspora.(2) Seu nome representava um tributo a Saul, primeiro rei judeu, consistindo, porém, a palavra Saulo na tradução para o grego. Possuía a cidadania romana, o que lhe conferia uma situação legal privilegiada. Sua formação rabínica foi iniciada aos 14 anos de idade, em Jerusalém, sob um costume rígido por efeito das normas dos fariseus e exercitado a ter o orgulho racial, condição peculiar aos judeus da antiguidade. É importante pronunciar, porém, que sua inteligência espiritual foi moldada sob os toques da instrução de Gamaliel, um dos maiores catedráticos nos anais do Judaísmo.
Imbuído de extrema retidão para com a sua fé, acuava os primeiros discípulos de Jesus na região de Jerusalém. Certa ocasião, sentindo-se gravemente insultado por Estevão, na Casa do Caminho, deu início à violenta perseguição aos cristãos, culminando com a lapidação e extermínio do próprio Estevão(3), irmão de sua noiva Abigail.
Durante planificada viagem para encalço de Ananias, homem que influenciou as idéias da noiva, Saulo, no auge dos 25 anos de idade, teve uma clarividência do Mestre envolto em intensa luz. Aquele fenômeno ocorrido na via que conduzia a Damasco deixou-lhe cego; todavia foi socorrido pelo azado Ananias que lhe recuperou  a visão. A partir daí, é impressionante a conversão de Saulo. Ele teve que modificar o conceito que fazia sobre o Cristo e inverter a opinião sobre a supremacia do judaísmo.
Os primeiros cristãos tinham como preceito de fé e prática os estudos das regras do Torá (Pentateuco de Moisés), normalmente na versão grega (Septuaginta) ou a tradução aramaica (Targum). Indignado com aquela conjuntura, Saulo asseverou que recebeu as "Boas Novas" por uma revelação pessoal de Jesus Cristo, razão pela qual se entendia independente da comunidade de Jerusalém, conquanto alegasse sua concordância com a essência do conteúdo das lições.
Os ensinamentos paulinos são fortemente desiguais dos princípios originais de Jesus, anotados pelos evangelistas. Alguns analistas garantem que o Apóstolo de Tarso sintetizou o judaísmo, o gnosticismo(4) e o misticismo(5) para um Cristianismo como uma religião com um “salvador” cósmico.
O Espírito Emmanuel afirma que “no trabalho de redação dos Evangelhos, que constituem o portentoso alicerce do Cristianismo, verificavam-se, algumas dificuldades para que se lhes desse o precioso caráter universalista. Todos os Apóstolos do Mestre haviam saído do teatro humilde de seus gloriosos ensinamentos; mas, se esses pescadores valorosos eram elevados Espíritos em missão, estavam muito longe da situação de espiritualidade do Mestre, sofrendo as influências do meio a que foram conduzidos.”(6)
É fato! Basta verificar o seguinte: Mateus escreveu para convencer os judeus que Jesus era o Messias que estava por vir, desta forma enfatizou o Antigo Testamento e as profecias a respeito desse ungido; Marcos, sobrinho de Barnabé e “filho” adotado de Pedro, escreveu para evangelizar, mormente os romanos, relatou somente quatro das parábolas de Jesus, enfatizando especialmente as atuações de Jesus; Lucas (não conheceu Jesus pessoalmente) escreveu para os gentios, enfatizando a misericórdia de Deus através da “salvação”, sobretudo para os pobres e humildes de coração, e João (sobrinho da Mãe de Jesus) escreveu num contexto mais vasto a propósito da missão do Mestre.
Depois do martírio do Gólgota, discípulos e apóstolos do Mestre, de modo geral, começaram a contemporizar com a autoridade do judaísmo. Emmanuel explana que “quase todos os núcleos organizados, da doutrina, pretenderam guardar feição aristocrática, em face das novas igrejas e associações que se fundavam nos mais diversos pontos do mundo.”.(7) Em razão dessa anomalia doutrinária, Jesus resolveu convidar “o espírito luminoso e enérgico de Saulo de Tarso ao exercício do seu ministério.”. (8) Essa determinação foi uma ocorrência das mais expressivas na história do Cristianismo. As atitudes, atuações e missivas de Paulo consubstanciaram-se em decisivo componente de universalização da Doutrina Cristã.
Paulo transformou as crenças religiosas e a filosofia de toda a região da bacia do Mediterrâneo (Sul da Europa, Norte da África, zona mais ocidental da Ásia, Oriente Próximo). Nas viagens missionárias percorreu cerca de 16.000 km, a pé ou de navio. Foram quatro grandes excursões apostólicas: 1ª Viagem (46-48 d.C.); 2ª Viagem (49-52 d.C.); 3ª Viagem (53-57 d.C.); 4ª Viagem (59-62 d.C.), sendo que na última viajou a Roma como prisioneiro, para ser julgado, e nunca mais retornou para a Judéia.
Com ênfase proferiu o Missionário dos Gentios, “fiz muitas viagens - Sofri perigos nos rios e mares, ameaças dos ladrões, riscos por parte dos meus irmãos de raça, perigos por parte dos pagãos, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos por parte dos falsos irmãos.”.(9) De cidade em cidade, de igreja em igreja, o convertido de Damasco, com o seu admirável prestígio, falou do Mestre, inflamando os corações. “A princípio, estabeleceu-se entre ele e os demais Apóstolos uma penosa situação de incompreensibilidade, mas sua influência providencial teve por fim evitar uma aristocracia injustificável dentro da comunidade cristã, nos seus tempos inesquecíveis de simplicidade e pureza.”.(10)
Curiosamente, o uso do nome Paulo surge pela primeira vez quando ele começou sua primeira jornada missionária. Em “Atos”(11), o Evangelista dos Gentios aparece, juntamente com Barnabé e João Marcos, conversando com Sérgio Paulus, um oficial romano em Chipre que foi convertido por ele. Paulus era um sobrenome romano e alguns argumentam que Paulo o adotou como seu primeiro nome. Há os que consideram admissível a homenagem a Sérgio Paulus, mas, provavelmente a mudança pode estar relacionada ao desejo do apóstolo em se distanciar da história do rei Saul.
Paulo, ao levar o Cristianismo a outros povos, não exigia a circuncisão desses novos cristãos. Diante disso, os discípulos de Jerusalém se reuniram em torno de Tiago para fazer valer a obrigatoriedade da circuncisão. O apóstolo de Tarso foi a Jerusalém para discutir o assunto. Em sua epístola, declara que foi neste encontro que Pedro, Tiago e João aceitaram a sua missão junto aos gentios.(12) Apesar do acordo encontrado na reunião de Jerusalém, o Convertido de Damasco confrontou publicamente Pedro, no que ficou conhecido como "Incidente em Antioquia", por causa da relutância do ex-pescador em realizar suas refeições com os cristãos gentios em Antioquia.
Escrevendo posteriormente sobre o incidente, relata: “Se tu [Pedro], sendo judeu, vives como gentio, e não como judeu, como obrigas os gentios a viver como os judeus?”.(13) Barnabé, que até aquele momento era companheiro de viagem de Paulo, ficou do lado de Pedro. Conquanto abandonado, Paulo não desistia, e foi um constante formador de missionários(as) e de equipes missionárias itinerantes. As suas cartas e Atos citam os nomes de 63 missionários(as).
Na sua ética, não permitiu o mercantilismo do Cristianismo. Pregou o Evangelho gratuitamente(14) e justificou essa atitude: “Pregamos o Evangelho a vocês, trabalhando de dia e de noite, a fim de não sermos de peso para ninguém”.(15) Até porque “tudo posso naquele que me fortalece”.(16)
Paulo partiu para Jerusalém em 57 com uma coleta de dinheiro que realizou para atender as vítimas da grande fome que ocorreu na Judéia. Viajou para a Casa do Caminho para entregar a ajuda financeira da igreja de Antioquia, igreja essa que já era um centro importante para os fiéis após a dispersão dos discípulos de Jesus que se seguiu ao martírio de Estevão, e foi aí em Antioquia que os seguidores de Jesus foram, pela primeira vez, chamados de cristãos, por sugestão de Lucas.
Paulo foi implacável contra a circuncisão, contra as restrições alimentares e contra os requerimentos da Tora(17), e isto provocou o rompimento final com os judeus. Foi notadamente acossado pelos judeus, que o consideravam um grande infiel. Na sua derradeira ida a Jerusalém, o filho de Tarso causou um alvoroço ao aparecer no Templo, e somente escapou da morte por ter sido preso. Ele foi então mantido encarcerado por quase 2 anos em Cesareia até que um novo governador reabrisse seu processo em 59 d.C. Paulo foi acusado de traição, por isso recorreu a César, alegando seu direito, como cidadão romano, de ser levado a um tribunal apropriado e de se defender das acusações.
Foi enviado para a capital do Império Romano por volta do ano 60; passou mais 2 anos em prisão domiciliar. No caminho para Roma, Paulo sofreu um naufrágio em "Melite" (Malta). Apesar de não ter sido o introdutor do Cristianismo em Roma, pois já havia cristãos na capital do Império, quando aí chegou teve um desempenho importante na formação da Igreja na capital de César.
O noivo de Abigail, em face dos seus sobre-humanos testemunhos, desabafou: “eu vivo, mas já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim.”.(18) “Dos judeus recebi cinco chicotadas menos uma. Fui flagelado três vezes; uma vez fui apedrejado; três vezes naufraguei; passei um dia e uma noite em alto mar...”(19). Pressagiou ao discípulo Timóteo: “Meu sangue está para ser derramado, chegou o tempo da minha partida. Combati o bom combate, terminei a minha corrida, conservei a fé...”.(20).
Paulo foi decapitado na Via Apia, em Roma, pela soldadesca romana nos primeiros meses do ano 67, durante a perseguição do insano imperador Nero. Nessa conjuntura, o Apóstolo dos Gentios transportava a experiência de 59 anos de idade, sendo que 30 deles dedicados a intensa vida missionária, dos quais cerca de seis anos amargou prisões, açoites, apedrejamentos e, por fim, o fio da espada amaldiçoada do famigerado soldado de César.
Descreve Emmanuel(21) que no momento da desencarnação, Paulo sentia a angústia das derradeiras repercussões físicas; mas, em poucos minutos, experimentou alívio reparador. Tomado de surpresa, foi recebido por Ananias, que o transportou a Jerusalém, e ali, foi orar a Jesus para ofertar-lhe o agradecimento. Ananias e Paulo reuniram-se no cimo do Calvário e aí cantaram hinos de esperanças e de luz. Lembrando os erros do passado amarguroso, Paulo de Tarso ajoelhou-se e elevou a Jesus fervorosa súplica.
Desenhou-se então, na tela do Infinito, um quadro de beleza singular e surgiu na amplidão do espaço uma senda luminosa e três vultos que se aproximaram radiantes. O Mestre estava ao centro, conservando Estevão à direita e Abigail ao lado do coração. O Mestre sorriu, indulgente e carinhoso, e falou:
- Sim, Paulo, sê feliz! Vem, agora, a meus braços, pois é da vontade de meu Pai que os verdugos e os mártires se reúnam, para sempre, no meu reino!...
E assim unidos, ditosos, os fiéis trabalhadores do Evangelho da redenção seguiram as pegadas do Cristo, em demanda às esferas da Verdade e da Luz...

Jorge Hessen
http://jorgehessen.net

Referências bibliográficas:

(1)           Alguns afirmam ano 8 d.C.
(2)           Dispersão
(3)           Nome grego sugerido por Pedro a Jeziel , que se tornou o primeiro mártir do Cristianismo.
(4)     Conjunto de correntes filosófico-religiosas sincréticas que chegaram a mimetizar-se com o Cristianismo primitivo
(5)     Busca da comunhão com a identidade, com, consciente ou consciência de uma derradeira realidade, divindade, verdade espiritual, ou Deus através da experiência direta ou intuitiva
(6)     Xavier, Francisco Cândido. A Caminho da Luz, ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed. FEB,      1977
(7)           idem
(8)           idem
(9)           2Cor 11,26
(10)         _______, Francisco Cândido. A Caminho da Luz, ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed. FEB,   1977
(11)         Atos 13:6-13
(12)        Essa primeira magna reunião cristã foi muito importante para o início do cristianismo, porque teve como principal objetivo discutir a incompatibilidade da doutrina  nascente com as regras antigas da Sinagoga. Foi o marco do desligamento do Cristianismo do judaísmo e confirmou o ingresso dos não-judeus na cristandade.
(13)         Gálatas 2:11-14
(14)         1Cor 9,18
(15)         1Ts 2,9
(16)         Filipenses 4,13
(17)    O Cristianismo baseado na tradução grega Septuaginta também conhece a Torá como Pentateuco, que constitui os cinco primeiros livros do Velho Testamento.
(18)         Gálatas 2,20
(19)         2Cor 11,24-25
(20)         2Timóteo 4,6-7
(21)     Xavier, Francisco Cândido. Paulo e Estevão, ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1990



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A CONVERTIDA DE MIGDOL, UMA APÓSTOLA

A biografia de Maria de Magdala é um dos mais admiráveis temas da história do Cristianismo, destacando-se como exemplos inesquecíveis sua sujeição na ilusão da beleza inóspita e sua posterior ternura aos hansenianos do Vale dos Imundos.
Segundo consta na tradição, a “mansão” daquela mulher, em Magdala ou Migdol (torre), hoje el-Mejdel, à época cidade localizada na costa ocidental do Mar da Galileia, era procurada pelos príncipes das sinagogas, abastados comerciantes, bilionários senhores de terras e de escravos, funcionários de alta categoria da administração herodiana, que lhe assentavam no cofre moedas de ouro, jóias, dracmas de prata, perfumes raros, presentes exóticos.
Aquela mulher ficou conhecida como Maria Madalena, personagem que traz à tona discussões com interpretações dessemelhantes sobre sua vida. Destarte, optamos por esquadrinhar um consenso a propósito de determinadas questões fundamentais, para que nossa pesquisa não perdesse apropriada uniformização do seu conteúdo.
Há quem afirme que muito mais a tradição do que a realidade se encarregou de difundir a suposta má fama de Madalena. “O Talmud apresenta como casada com o judeu Pappus Benjudah, que abandonou para unir-se ao oficial de Herodes chamado Panther; não era necessariamente uma "pecadora pública" nem uma "viciada" como a descreve Gregório Magno”.(1) Muitos a identificam como endemoninhada (por sete obsessores), prostituta (as bases históricas dessa última afirmação parecem ser bastante frágeis para alguns exegetas). Sabe-se, com certeza, que a Maria difamada de Magdala não era feliz.
Alguns escritores e estudiosos contemporâneos, baseados nos Evangelhos Canônicos, nos livros apócrifos do Novo Testamento e nos escritos gnósticos, sobretudo Margaret George, Henry Lincoln, Michael Baigent e Richard Leigh, autores do livro O Santo Graal e a Linhagem Sagrada (1982), e Dan Brown, autor do romance O Código da Vinci (2003), apesar de proporem teses mirabolantes, descrevem Maria Madalena como uma apóstola.
Certa noite, instada por uma serva de confiança, permitiu um diálogo sobre um Excelso Peregrino que percorria as estradas da Galiléia e da Judéia. Entusiasmada, no dia seguinte, servindo-se de frágil embarcação, atravessou o lago para conhecer Jesus, em Cafarnaum. Os dias se passaram até quando o Cristo esteve em Magdala, a proprietária da famosa “casa nobre” tomou de um vaso de alabastro que continha o perfume do lótus, comprada a preço de ouro.
Era seu presente ao sublime Rabi da Galileu. Sabendo-O num banquete em casa de Simão, um rico comerciante da Galiléia, para lá se dirigiu.(2) Quase ao final da ágape, rompendo a segurança, a famosa e afamada de Magdala(3) irrompe na sala e se arroja aos pés do sublime Galileu. O endinheirado Simão, dono do casarão se enche de fúria, mas receia determinar expulsá-la.(4) O afetuoso Nazareno exalta o gesto daquela corajosa Madalena que ajoelhada a seus pés, rega-os com suas lágrimas, enxuga-os com seus sedosos cabelos e os unge com o sobrenatural bálsamo que invade todo o recinto. O divino Senhor simplesmente diz: por esse gesto  te digo que os teus muitos pecados te são perdoados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco é perdoado, pouco ama. Mulher, a tua fé te salvou; vai-te em paz.(5)
Avaliava o Mestre o coração daquela alma intensamente amorosa, transitoriamente fraquejada sob o guante da ilusão da beleza física desértica. Por isso investiu na sua recuperação, incentivando a modificar de vida, o que ela acolheu com a consistência adamantina da sua personalidade forte e iniciou um rumo novo, transformando-se, depois da Mãe de Jesus, no maior exemplo de Amor na face da Terra.
Na manhã subsequente a população de Magdala soube, surpreendida, a notícia da conversão da mulher, insígnia da iniquidade. Ela abrira mão de todos os bens materiais que possuía e, com o estritamente necessário, iniciara nova vida. Juntou-se discretamente aos que seguiam o Messias, mas infelizmente por várias vezes, recebeu a bofetada da suspeição.
No transcurso dos meses, atingindo os momentos da traição de Judas, da prisão de Jesus, do julgamento arbitrário, ei-la, peregrinando para o Gólgota, acompanhando-O. A convertida de Magdala conservou-se ao pé da cruz, unida a Maria de Nazaré e ao jovem João Evangelista. No instante em que a fronte do Mestre pendeu pesada, ansiou abraçar-se outra vez aos Seus pés e osculá-los com soberana veneração, porém se sentiu imobilizada.
No domingo (três dias após o martírio da Cruz), chegando ao túmulo do Mestre ao lado de Joana de Cusa, Maria (mãe de Marcos) e outras mulheres (6), deparou com a pedra do sepulcro deslocada, dobrados os lençóis de linho que lhe haviam envolvido o corpo e o sepulcro vazio. Madalena teve receio que os fanáticos judeus houvessem furtado e escondido o corpo do Príncipe da Paz.(7) Enquanto as demais mulheres retornaram a Jerusalém, a fim de noticiar o sucedido, Madalena conservou-se no jardim adjacente, a chorar.
A nostalgia feita de agonia lhe enxovalhava o coração, quando escutou a dúlcida voz do Crucificado, chamando-a: - Mulher! “[Gyne]”(8) Ela se volta, e mal consegue avistar um vulto, os olhos ainda embaciados pelas lágrimas e as pupilas dilatadas pela escuridão do sepulcro. Seria o jardineiro? Teria ele ocultado o corpo do Divino Amigo? Então, os ouvidos descobrem o que os olhos não podem desvendar: a voz torna a chamá-la, mas desta vez pelo nome: Maria! Quando a filha de Magdala ouve aquela voz transcendente chamando: “- Maria!”, ocorre uma transformação admirável: ela reconhece o suave Rabi redivivo, e exclama: “- Raboni(9), meu Mestre!” E, literalmente, tenta abraçá-lo, todavia não era momento para tocá-lO.(10)
Interessante meditar “por que razões profundas deixariam o Divino Mestre tantas figuras mais próximas de sua vida para surgir aos olhos de Madalena, em primeiro lugar? O gesto de Jesus é profundamente simbólico em sua essência divina. Dentre os vultos da Boa Nova, ninguém fez tanta violência a si mesmo para seguir o Salvador, como a inesquecível obsedada de Magdala.”.(11) A ex-vendedora de ilusões difamada pelos madalenos, em quem se costumava atirar injúrias, no encontro com o Mestre materializado redescobre sua identidade e até amplia seu horizonte existencial. Ao reconhecer Jesus, imediatamente O coloca acima, chamando-O Raboni. O Cristo estava ali, redivivo, radioso como a madrugada recém nascida.
Madalena foi anunciar o episódio aos apóstolos, que não acreditaram. Por que haveria Jesus de aparecer logo para ela? No entanto, Maria de Nazaré a abraçou e lhe pediu detalhes. Os dias que se seguiram foram de saudades e recordações. As notícias auspiciosas chegavam-lhe aos ouvidos.
Soube que naquele mesmo dia, indo dois discípulos para suas residências situadas nos arrabaldes (Emaús), distante de Jerusalém sessenta estádios(12), os discípulos enquanto conversavam, o Cristo se lhes juntou e se pôs a caminhar com eles (Jesus havia tido seus pés dilacerados na crucificação); - mas não O reconheceram. “Ao aproximarem-se de suas casas, o Crucificado queria ir adiante. Os dois disseram-Lhe: - Fica conosco, que já é tarde. Ele entrou com os dois. Estando com eles à mesa, dividiu o pão, abençoou-o e lhes deu. Abriram-se-lhes ao mesmo tempo os olhos e ambos O reconheceram; Jesus, porém, lhes desapareceu das vistas.
Madalena soube que Jesus apareceu também para “Simão Pedro ,Tomé, Natanael, os filhos de Zebedeu e dois outros de seus discípulos à margem do mar de Tiberíades.”.(13)
Depois disso, “Jesus os conduziu para Betânia e, tendo levantado as mãos, os abençoou, e, tendo-os abençoado, se separou deles e foi arrebatado ao infinito. Quanto a eles, depois de o terem adorado, voltaram para Jerusalém, cheios de alegria.”.(14)
A convertida de Magdala experimentou solidão e abandono e, para suavizar a imensa saudade do Rabi, passou a andar pelas longas praias que tanto O relembravam. Numa dessas tardes, encontrou leprosos que vinham da Síria a fim de buscar o socorro da cura. Ela os abraçou, dizendo-lhes que Jesus foi crucificado. Deteve-se por horas a falar, saudosa, do que aprendera com quem era o Caminho, a Verdade e a Vida. Depois, seguiu com eles ao vale dos imundos (leprosos).
Alguns anos após, devorada pela lepra, sentindo que ia desencarnar, desejou rever Maria de Nazaré e foi a Éfeso. Após três dias de delírios, sentiu-se repentinamente expulsa do corpo, na praia onde encontrara os leprosos sírios e, sua aparência era de quando jovem e bela. Nesse momento vê caminhar sobre as águas a figura de Jesus que lhe disse:
- Vem Maria, já atravessaste a porta estreita. Todas as tuas culpas estão perdoadas porque muito amaste e muito sofreste. Eu estava a tua espera. Agora dorme. Eu te escolho para que venhas ao meu reino! Madalena adormeceu nos braços de Jesus.
Jesus realizou duas hierarquias de “ressurreição”: “ressurreição” do corpo, e “ressurreição” do espírito. “Ressuscitou” Lázaro, e “ressuscitou” Madalena. Aos olhos do mundo, a primeira dessas duas maravilhas assume maiores proporções, mas, aos olhos de Deus, o segundo prodígio é mais belo, mais valioso. O corpo de Lázaro veio a morrer após aquela “ressurreição”. Madalena nunca mais morreu, porque o que nela ressurgiu não foi a carne, foi o espírito. O mundo se maravilha na “ressurreição” de Lázaro. O Mundo Espiritual Superior se extasia da “ressurreição” de Madalena.
Especula-se que após essa encarnação dos tempos apostólicos, Maria de Magdala ainda teve outras encarnações, até chegar a encarnar pela última vez como Madre Teresa de Ávila (Santa Teresa de Jesus) cujo nome verdadeiro era Teresa de Cepeda Y Ahumada, uma revolucionaria religiosa nascida na Espanha em 1515 e falecida em 1582.(15) “Se non è vero, é ben trovato”.(16)

Jorge Hessen

http://jorgehessen.net


Referência bibliográfica:

(1)           Pastorino, Carlos T. Sabedoria do Evangelho , Rio de Janeiro: Ed Sabedoria, 1964
(2)           Não deve ser confundido com outra cena semelhante, ocorrido mais tarde (em abril do ano seguinte) na casa de Simão, ex-leproso, em Betânia (Mat. 26:6-13, Marc. 14:3-9 e João, 12:1-8), quando Maria de Betânia, irmã de Marta, executou o mesmo gesto.
(3)           Alguns exegetas não reconhecem  Maria Madalena como sendo a mulher da narrativa de Lucas.
(4)           Por delicadeza, Marcos  omite o nome da mal-afamada. Esse silêncio fez com que na igreja antiga se desenvolvesse uma interpretação extremamente confusa.
(5)           Lucas, VII, 47 e 48
(6)           De acordo com Lucas e Marcos, o objetivo, para as mulheres se dirigirem ao túmulo, foi embalsamar o corpo de Jesus com especiarias
(7)           A pilhagem de sepulturas era algo bem comum na Palestina, onde as tumbas ficavam acima do chão. Diante disso, um crime devia ser esperado, uma vez que Jesus foi sepultado num túmulo emprestado, de um rico doador.
(8)           Em grego, mulher é gyne, de onde derivam as palavras portuguesas “gene”, “genética”, “gênero”, “gênesis”
(9)           O termo "Raboni" é mais solene que o habitual "Rabi"
(10)        Na narrativa joanina , Madalena ela é destacada como primeira testemunha do túmulo vazio (20:1-10) e como a primeira pessoa a quem o Senhor ressurrecto apareceu (20:11-18), em contraposição aos Sinópticos, onde ela dividiu estas experiências com várias outras mulheres (Mat. 28:1-10; Mar. 16:1-8; Luc. 24: 1-11
(11)        Xavier, Francisco Cândido. Caminho, Verdade e Vida, ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed FEB, 1999, cap.  92)
(12)        O estádio romano valia 625 pés romanos ou seja 185 metros
(13)        Kardec, Allan. A Gênese, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1977, item 59
(14)        Lucas, cap. XXIV, vv. 50 -53 e At :9-12
(15)        Disponível em http://feparana.com.br/parolima.comacesso em 16/02/2012
(16)        "Se não é verdade, é bem contado."






















“A MAIOR CARIDADE QUE PODEMOS FAZER PELA DOUTRINA ESPÍRITA É A SUA PRÓPRIA DIVULGAÇÃO.” EMMANUEL
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